Doces ou travessuras?



São 20h30m (horário de verão) e mais de três grupos de garotos já passaram na minha porta perguntando: doces ou travessuras? Doces eu só tenho os do meu filho e esses eu não posso dar. Travessuras? Meu Deus!, com a violência e a falta de bom senso que assola a sociedade de hoje, fico preocupado com o que eles podem aprontar. Mas eles estouram uma bombinha na calçada e vão embora. Graças a Deus!

Trato-os bem, afinal são crianças e não tem culpa dessa invasão cultural. Aproveitam a oportunidade para faturar uns docinhos com os vizinhos. Incrível senso de oportunidade essas crianças desenvolveram!!

Alguns anos atrás eu ficaria indignado. Não com as crianças, mas com a sociedade que permite essa “americanização”. Sim, porque esses crianças aprenderam sobre Halloween, ou dia das bruxas nos filmes estadunidenses. E eles são os culpados de muita coisa ruim que acontece no mundo. Com poucas exceções.

Mas descobri que essa festa vem de uma cultura mais antiga que a estadunidense. Os Celtas reservavam esse dia para comemorar a nova colheita do ano e apaziguar espíritos malignos que prejudicavam essas colheitas, deixando comidas para eles. Se não deixavam: travessuras!

A tradição atravessou épocas e fronteiras, sendo adaptadas a sociedades e políticas, como no caso do Papa Gregório III, em 835, que mudou o dia de Todos os Santos para 01 de novembro para minimizar a situação dos territórios recém conquistados na Europa, colocando as duas festas em sincronia, a pagã e a cristã.

Hoje entendo que esses garotos que batem na minha porta são frutos de uma globalização que começou há muitos anos e que não tem mais retorno. Aos poucos o que é interessante pra um povo vai sendo copiado, sintonizado, transferido, homogeneizado e homologado num processo sem volta. Eu nunca perguntei doces ou travessuras? Nem meu pai, muito menos meu avô. Mas meu filho já viu e descobriu vendo esses garotos. Rapidamente pegou um pote e junto com amiguinhos da mesma idade começou a perguntar pela vizinhança: doces ou travessuras? Pra ele, a partir de agora, essa data faz parte da sua cultura, e para os filhos dele isso vai ser tão comum como Papai Noel com roupa de frio em pleno verão tropical.

Quando ele ficar mais velho, vou contar a história do Dia das Bruxas, e quem sabe ele adapte para o Dia da Cuca, uma bruxa 100% brasileira. E continue pedindo doces pela vizinhança.

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