A corrida

Trilha musical sugerida para ler esse texto: Samuel Osborne Barber - Adagio For Strings



O treino tinha sido puxado. Duro e longo. Praticamente Olavo não se lembrava de quando não havia treinado na sua vida. “Talvez quando bebê” pensou. “Só se fosse antes do médico bater na minha bunda” ironizou consigo mesmo. Olavo estava preparado. Uma vida inteira treinando para aquele momento. Ele lembrou da época da escola, como todos corriam e ele sempre ia à frente. Sempre chegava entre os primeiros, e isso o frustrava e estimulava ao mesmo tempo. Tinha de correr sempre mais, mais rápido, mais forte, melhor.

Agora era o melhor e havia chegado o momento de provar isso. Havia se preparado da melhor forma, com o melhor técnico, tinha o melhor equipamento, o melhor tênis, a melhor estratégia. Tinha certeza de que ganharia. Custasse o que custou. Valeram a pena os anos de investimento. Havia se tornado um ser único, ninguém era igual a ele. Ninguém poderia ser melhor que ele.

Olavo se preparava pra largada. Estava concentrado, nada o perturbava, nem os concorrentes, nem a torcida, nem as pessoas da organização falando nos seus megafones, nem o sol forte. Nada.

Olavo se preparava quando alguém o empurrou. Por um segundo perdeu a concentração e olhou para o adversário. Seu coração disparou. O que era aquilo? Um espelho? Mas como podia ser? Não era possível. Aquela pessoa era igual a ele. As mesmas feições, o mesmo penteado, as mesmas roupas. O mesmo tênis!

Perturbado, Olavo não conseguia desgrudar os olhos daquele ser. Seria seu irmão gêmeo? Como poderia existir uma pessoa tão parecida com ele sem ser seu gêmeo? Nesse momento Olavo teve uma segunda surpresa. Olhando para os outros concorrentes descobriu que todos eram iguais a ele. Iguais em tudo. Dos pés à cabeça, nas roupas e nos trejeitos. Todos os concorrentes eram iguais.

Tentando manter um pouco da sua racionalidade, tentou converse-se que estava sofrendo de uma ilusão. Não, isso não poderia estar acontecendo com ele justo hoje, no dia que talvez seja o mais importante da sua vida até aquele ponto. Todos iguais a ele. Ele que havia treinado tanto para ser diferente, único, insubstituível. Agora tudo estaria perdido se o que via fosse verdadeiro.

Olhou para os organizadores e aliviado viu que eram diferentes. Mas não! Eram iguais! Diferentes dele, mais iguais entre si. Senhores, velhos senhores, vestindo ternos escuros e gravatas vermelhas, todos iguais, com sorrisos e olhares de satisfação. Senhores poderosos e cheios de dinheiro. Organizavam a corrida dos iguais.

Olavo desviou o olhar pra torcida e reparou que os gritos que antes achava que eram de incentivo aos corredores, não verdade eram lamentos de uma massa heterogênea. Não eram iguais, nem diferentes. Eram crianças e velhos, jovens e adultos, pretos e brancos. Todos estavam vestidos com roupas em tons de cinza. Alguns gritavam, outros choravam, outros ainda apenas sorriam sorrisos cheios de ironia.

Perplexo Olavo percebeu que havia treinado a vida toda não para ser o melhor, mas para ser mais um entre os iguais. Percebeu que todos tinham o mesmo treino dele, a mesma estratégia de vida, os mesmos sonhos. Que ele não era um ser singular, mas um indivíduo: a menor parte atribuída à massa de corredores iguais. A singularidade perseguida a vida toda estava do outro lado das cordas que separa corredores e torcedores. Estava naquela massa cinza de excluídos.

Pensou no seu mentor espiritual, tantas vezes consultado sobre suas angustias. Seu Guru, um velho senhor que aconselhava pessoas pelo preço certo, claro. Nem nisso ele era diferente. Suas emoções e sentimentos eram um produto daquele velho senhor. Como as emoções treinadas das outras pessoas seriam.

Olavo olhou ao seu redor mais uma vez e abaixou a cabeça. Uma lágrima verteu dos seus olhos. Colocou-se na posição tantas vezes treinada e esperou a largada. Quando ouviu o estampido correu. Correu como nunca antes havia corrido.

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