Pequenos grandes limites
Esse conto foi produzido na Oficina de Criação Literária do escritor montenegrino Oscar Bessi Filho. È resultado de uma história de leituras e uma certa tensão em acabar no prazo da oficina. O final não é original, mas é lindo!
Pode ate ser desculpa, mas contos é uma seara que estou aprendendo a cultivar!
Pequenos grandes limites
Jorge suava. Ele não acreditava que estava naquela situação. Logo ele, que morria de medo de altura. E tudo isso por causa de Aline.
Aline tinha chegado na cidade há uma semana. Tinha vindo da capital. Linda. Ela parecia com aquelas meninas das revistas que ele via no escritório da firma. E ela sabia que era linda. Logo que chegou na cidade causou comoção entre os rapazes dali. Jorge também não ficou imune a beleza de Aline. Apaixonou-se logo que a viu descendo do carro em frente a casa em que ficaria na cidade.
Todos os dias no percurso para a firma, e durante o expediente, ele passava em frente a casa dela. Procurando por um vislumbre qualquer da sua beleza. Mas não ia além disso. Era tímido demais para tentar uma aproximação.
Aqueles com que trabalhava sentiam que estava diferente, mais disperso do que o costume. Fernando, um colega mais velho, comentava ironicamente “deve estar apaixonado”. Fernando era daqueles que gostava de dar opinião em tudo e largou um dos seus conselhos “grátis” para Jorge: “se ta apaixonado, e ela não, dá um presente pra ela. Ela vai se derreter!”
Jorge ponderou sobre isso e achou que um presente poderia ser a desculpa ideal para uma aproximação. Mas o quê? Que presente poderia dar a Aline? As revistas! Naquelas revistas poderia estar a resposta. Folheando-as viu uma matéria sobre o sonho de consumo das leitoras. Entre as várias opções concluiu que um tênis de marca seria ideal. Primeiro porque Aline com certeza iria adorar e depois porque ele poderia comprar parcelado, já que não dispunha de quantia suficiente para pagar à vista. E com certeza essa compra faria um rombo no seu minguado salário.
A cidade era pequena, não tinha muitas opções de lojas onde comprar o tênis. Jorge também não saia muito da cidade, não conhecia outros lugares onde compra-los. Na loja da dona Irene, que vendia um pouco de tudo encontrou um tênis feminino bonito e de preço razoável.
No sábado, depois de dias criando coragem e vestindo sua melhor roupa, bateu a porta de Aline. Seu coração estava acelerado com a expectativa de vê-la tão perto. Quando a porta se abriu e ela apareceu, Jorge sentiu que poderia desmaiar. Suava muito, com o coração saindo pela boca, gaguejou alguma coisa que a fez sorrir. Ela olhando para o presente perguntou “é para mim?” “sim, quer namorar comigo?”. Jorge não sabia porque tinha dito aquilo. Talvez a emoção. Talvez a perda da razão.
Aline, moça da capital, conhecendo o efeito que causava nos rapazes e com uma ponta de maldade disse que poderia namorar ele se Jorge fizesse uma coisa por ela. “Qualquer coisa”, Jorge estava cheio de esperança. “Amanhã depois da missa, suba na torre da igreja e grite que me ama”.
Jorge ficou perplexo, não poderia fazer aquilo. Morria de medo de altura e era tímido. Subir tão alto e ainda se expor em público daquela maneira. Mas sempre ouviu falar que o amor supera tudo. Ele poderia fazer aquilo. Ele amava Aline.
Jorge suava. Eram dez horas da manhã e o sol queimava. Ele estava apavorado, odiava a situação, mas valeira a pena. Apesar do medo, ele suba cada vez mais alto na torre da igreja. Não ousava olhar para baixo. Quando chegou no topo, as pessoas começaram a sair da missa. Ele começou a procurar Aline na multidão para gritar o combinado. Não a achava em lugar nenhum.
Olhando mais para longe a viu entrando no carro junto com suas malas. Entrou e foi embora.
Jorge, porém, não se importa mais. Ele via agora além dos limites da cidade.
história bacana. bem desenvolvida. final enigmático. se não dominava a arte do conto, agora já domina.
ResponderExcluirValeu a força JB. A auto-crítica é tão presente que a gente fica feliz com pequenos elogios... valeu!
ResponderExcluirBem, Edilson. Teu texto, digamos, até pode ser lapidado, afinal a gente sempre acaba arrumando. Ontem mesmo achei minha crÔnica lá no blog um fiasco, por ter sido escrita em pouco tempo. Mas teu texto, siceramente, tem todos os elementos do conto. Os níveis de tensão, clímax, desfecho surpreendente e - o melhor! - este enigma no final que deixas ao leitor, mesmo que compreensível, mas ficamos à vontade para pensar sobre. Escrito numa tarde? Em minutos? Caramba! O negócio é parar de se encolher e nos brindar com mais textos deste nível!
ResponderExcluirObrigado! Fico lisonjeado pela leitura, critica e elogios!
ResponderExcluirValeu Oscar!!
hehehe, vou tentar abrir a porta do armário, mas por dentro é dificil...