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Secando as idéias

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Todo dia é a mesma coisa. Não posso entrar no banho que as idéias vem com a água. Fico imaginado milhões de pessoas pensando e essas idéias volatizando, evaporando, para logo em seguida se misturar com as nuvens, condensando-se, sintetizando-se. A seguir caem em garoas ou tempestades, penetram a terra, correm aos rios, são captadas, tratadas, encanadas e sai quentinha no meu chuveiro. Uma fração daquilo que foi pensado. Uma ansiedade. Todo dia a mesma coisa. Muitas idéias de como resolver os problemas do mundo e os meus. Principalmente os meus. Logo estou feliz, contente e cheio de esperança. Agora vai! Vou escrever aquele livro, vou entrar em forma, aquele artigo que está incipiente na minha cabeça, preparar aquela aula, aprender inglês, violão, a escrever! Agora vai! Inebriado com todos esses pensamentos desligo o chuveiro, a água para e junto com ela o fluxo criativo. Tenho que ser rápido, registrar isso de alguma forma. Enquato vou me secando, as idéias vão grudando na toalha, roub...

O dia seguinte

No dia seguinte, sentados à mesa do café, não trocaram cumprimentos. Estavam surdos e mudos. Viam com certeza, um ao outro, mas não queriam se falar. A noite começou como uma promessa de felicidade. As esperanças e as fantasias borbulhavam com o pôr do sol e cresciam exponencialmente com a noite. As luzes davam as coisas da cidade ares de virtualidade. A ilusão estava presente em todas as esquinas. O cinza do dia ganhava novas e várias cores elétricas. As vitrines refletiam a fantasia do momento. Tudo era cor e esperança. As pessoas naquele lugar tinham cores bonitas. Sorrisos, peles, cabelos, roupas. Cores matizadas. Tudo. Fantasticamente acolhedor e excitante. E sons alucinantes. Delírio dos sentidos. O melhor lugar para estar naquele momento era ali. E eles estavam. Com seus corpos produzidos, criados pelas exigências da sociedade, guiados pelas revistas da moda. Prontos e bonitos. Sorrisos, olhares, carícias, sedução! O melhor lugar para se estar. Prazeres da noite. A conqu...

Gotas de Delírio Cotidiano - Domingo

Domingo. Dia de preguiça. Nada pra fazer a não ser ficar atirado no sofá, olhar televisão, escutar música, comer. Comer? Putz, não tem comida em casa. Tem que sair. Merda! Ainda bem que hoje em dia os supermercados abrem no domingo. Eu ainda lembro da época que só os mercadinhos do bairro abriam nos domingos. E só até o meio dia. Visto uma roupa mais decente, não dá pra sair com essas que uso em casa. A pé ou de carro? Vai ter sacolas, vou de carro. O sol tá gostoso, faz tempo que não sinto ele na pele. Ultimamente é só chuva, o dia inteiro. Um saco! Fica tudo úmido. A gente fica num mau humor do cão quando vive nos extremos. No inverno frio e chuva, no verão calor e seca. Mas ainda prefiro o verão. O frio dói. O super tá vazio. As meninas dos caixas não estão usando uniformes, deve ser porque é domingo. Só o fiscal usa o uniforme. O que eu preciso comprar? Comida? Mas já que estou aqui, posso levar outra coisa que esteja faltando. O quê? Preciso fazer uma lista de coisas que falta...

Orkut

Encontraram-se novamente 20 anos depois. Pelo Orkut. Participavam da mesma comunidade: “Um livro e um café”. Tinham se conhecido na escola e começaram a namorar. Ela acabara de sair de um relacionamento. Ele nunca tivera uma namorada, ou melhor, nada realmente sério. Estava aprendendo a conhecer as mulheres, suas manias, suas sutilezas. Ela foi o primeiro amor dele. Ele era o terceiro dela. Porque mesmo haviam terminado? Ele estava muito apaixonado, queria casar. Ela tinha outros planos. Conhecer outras pessoas, outros lugares, coisas diferentes, não queria criar raízes. Foi ela que terminou. Ligou para ele e terminou o namoro. Ele segurou o choro. Nunca chorou por aquele amor. Agora ela estava ali, fazendo com que ele lembrasse desse amor. De como começou, como foi e como terminou. Lágrimas ensaiaram nos seus olhos, mas ele segurou. Pelo Orkut trocaram informações. Ela tinha mudado muito, não era mais a menina linda que ele se lembrava. Ela havia se casado e tinha um casal...

A corrida

Trilha musical sugerida para ler esse texto: Samuel Osborne Barber - Adagio For Strings O treino tinha sido puxado. Duro e longo. Praticamente Olavo não se lembrava de quando não havia treinado na sua vida. “Talvez quando bebê” pensou. “Só se fosse antes do médico bater na minha bunda” ironizou consigo mesmo. Olavo estava preparado. Uma vida inteira treinando para aquele momento. Ele lembrou da época da escola, como todos corriam e ele sempre ia à frente. Sempre chegava entre os primeiros, e isso o frustrava e estimulava ao mesmo tempo. Tinha de correr sempre mais, mais rápido, mais forte, melhor. Agora era o melhor e havia chegado o momento de provar isso. Havia se preparado da melhor forma, com o melhor técnico, tinha o melhor equipamento, o melhor tênis, a melhor estratégia. Tinha certeza de que ganharia. Custasse o que custou. Valeram a pena os anos de investimento. Havia se tornado um ser único, ninguém era igual a ele. Ninguém poderia ser melhor que ele. Olavo s...

Pequenos grandes limites

Esse conto foi produzido na Oficina de Criação Literária do escritor montenegrino Oscar Bessi Filho. È resultado de uma história de leituras e uma certa tensão em acabar no prazo da oficina. O final não é original, mas é lindo! Pode ate ser desculpa, mas contos é uma seara que estou aprendendo a cultivar! Pequenos grandes limites Jorge suava. Ele não acreditava que estava naquela situação. Logo ele, que morria de medo de altura. E tudo isso por causa de Aline. Aline tinha chegado na cidade há uma semana. Tinha vindo da capital. Linda. Ela parecia com aquelas meninas das revistas que ele via no escritório da firma. E ela sabia que era linda. Logo que chegou na cidade causou comoção entre os rapazes dali. Jorge também não ficou imune a beleza de Aline. Apaixonou-se logo que a viu descendo do carro em frente a casa em que ficaria na cidade. Todos os dias no percurso para a firma, e durante o expediente, ele passava em frente a casa dela. Procurando por um vislumbre qual...

A porra da internet

Ontem me perdi novamente. Tinha o dia planejado e sem que pudesse fazer qualquer coisa contra, o hábito ligou o computador. É a minha droga. Ali esqueço de mim, sou eu no que há de melhor e pior. Vou da pornografia a transcendência espiritual, em dois movimentos. Um assunto puxando outro, uma página levando a outra e assim vai se navegando, uma viagem alucinógena pela minha vida, meus desejos, minhas angustias. Ontem eu voltei pra trás na minha história. Muito rock gaúcho anos 80/90. Putz, eu estava ali, pronto, preparado, quente. E não aconteceu nada, de novo! Isso sempre acontece e cada vez me sinto pior, mais descartável, mais pesado, mais velho, mais dispensável. Então volto pra porra da internet. Escondido pelo teclado. Revelado no reflexo do monitor!